Revólver Caramuru 0001: arma comercial ou protótipo.

Há alguns dias recebi um colega colecionador que havia adquirido o primeiro revólver feito pela empresa Caramuru.

Tratava-se do modelo R1, o primeiro revólver .22 LR produzido pela empresa Caramuru, de uma série de armas confeccionadas pela extinta fábrica de armas nacional F.A.M – Fábrica de Armas Modernas.

Fiquei lisonjeado com a possibilidade de colocar as mãos naquele pedaço de história representativa das armas nacionais, sobretudo por tratar-se da arma cujo número de série era 0001, ou seja, o primeiro revólver feito pela referida empresa.

Note a ausência de colisão ocasionada pelo recuo do cartucho no fundo do revólver, o que demonstra nunca haver disparado.

A primeira coisa que notei foi o fato de que a arma jamais deu um tiro sequer, mantendo seu estado mint absoluto. Logo pensei, se essa arma fosse americana e estivéssemos nos EUA, sem dúvida esse pequeno pedaço de metal alcançaria cifras incalculáveis, já que os Norte Americanos valorizam tudo aquilo que é produzido em seu país. Sabem, de maneira quase exclusiva, que um país, para ser grande, necessita antes de mais nada valorizar sua história e nada valoriza mais essa história do que as armas de seu povo.

Meu amigo me apresentou uma dúvida tenaz em relação à sua arma, que como colecionador e estudioso sobre o tema de armas de fogo logo percebi que poderia fazer sentido sua angustia.

Revólver modelo R1 cal. 22, série 0001

Sua primeira dúvida era acerca da empunhadura da arma. Seu modelo não continha o logotipo (cara do índio) da empresa Caramuru na parte superior da empunhadura, nos fazendo crer que o cabo não seria original.

Ao compararmos o 0001 com outros revólveres do mesmo modelo R1 percebemos diversas alterações na arma, inclusive no diâmetro da estrutura do cabo. Também verificamos, de início, que o cabo de madeira (empunhadura) não continha o logotipo da empresa Caramuru, tampouco correspondia à medida apontada.

Meu amigo, quando adquiriu essa peça no Estado do Espírito Santo, teve garantida a autenticidade pelo vendedor. Ao desmontarmos o lindo Caramuru 0001 percebemos que o referido número de série (0001), ao invés de estar estampado no quadro, tambor, cano, continha outro número: o número 415, que era repetido em todas as peças daquela arma.

Meu velho amigo quase sofreu um enfarte, tudo estaria acabado!!! O sonho dourado do colecionador… possuir a primeira arma!!! O número de série 0001!!! Passamos a temer pela não originalidade da peça ao perceber a falta do logotipo na empunhadura e, sobretudo, devido ao fato de que os números de série não estavam estampados nas diversas partes da mesma arma.

Logo surgiu a dúvida que nos atormentou durante alguns meses: o 415 seria número de série ou possível número de peça? Tratava-se nosso Caramuru 0001 de uma arma remontada com peças de um revolver de série 415?

Tratei logo de acalmá-lo. Logo propus que deveríamos encontrar um outro revólver R1 Caramuru para dissecá-lo e estudar a fundo a maneira com a qual o fabricante estaria cunhando os números de série, pois poderia tratar-se de números de peças, com as quais a empresa Caramuru abandonaria a forma Norte Americana de cunhar. Nos EUA o fabricante lança o mesmo número de série em todas as partes da mesma arma, motivo pelo qual o número de série em nosso lindo Caramuru deveria conter 0001 em todas as partes daquele revólver, o que não ocorreu.

Arma R1 gentilmente cedida por empresário e colecionador de São Paulo para estudo.

Passado algum tempo recebi a ligação de um colega empresário do Estado de São Paulo, que sabendo de nosso pleito, resolveu nos atender, trazendo prontamente um R1 de sua coleção particular. Incontinenti liguei para meu amigo e marcamos um estudo aprofundado nos revólveres Caramuru, a fim de sabermos a originalidade ou não do Caramuru 0001.

Todos estávamos ansiosos. Até nosso amigo, o tal empresário que nos emprestara a arma para comparação torcia para que sua arma não tivesse o número de série do cabo/quadro estampado nas outras partes. O clima estava tenso. Primeiro tirei a empunhadura das duas armas para comparação.

Modelos idênticos sendo desmontados para estudo.

Ao tentar trocar as empunhaduras entre as duas armas logo tivemos uma boa notícia. O cabo que acompanhava a arma 0001 não cabia no número de série 2194. Os diâmetros não permitam a troca de empunhaduras. A empunhadura da arma 0001, portanto, era definitivamente original!!! Havia saído de fábrica sem o logotipo da empresa.

Aliás, tudo indica que o revólver 0001 não foi vendido comercialmente como veremos no decorrer da análise dessa arma. Ao lado vemos que a empunhadura da arma cujo número de série é mais adiantado não possui o mesmo diâmetro do modelo inicial, permitindo seja concluído que o cabo de madeira sem o logotipo realmente foi fabricado para o modelo 0001, provando sua originalidade.

Seguíamos todos felizes com aquela descoberta. Não se tratava da forma com que a empunhadura tinha sido feita, mas sim com o diâmetro e o tamanho da base (quadro) onde a empunhadura se assenta.

A medida da estrutura do cabo do revólver 0001 é pouca coisa maior e menos curvada do que o modelo comparativo, cujo número de série é maior. Então notei o número de série estampado na arma. Não era correspondente. Continha o número 594 no quadro, também no cano e na parte dianteira do tambor.

O modelo acima, cujo número de série é 2194 contém o número 594 na parte onde se assenta a empunhadura, ao passo que o revólver de número de série 0001 contém o número 415.

Pulávamos feito crianças. Só colecionadores entenderiam a felicidade sentida naquele momento. Da análise comparativa entre os números de série 2194 e 0001 podemos chegar à seguinte conclusão: O R1 cujo número de série é 0001 realmente é verdadeiro e matching, tratando-se de um protótipo que não foi lançado à venda, devendo, ao que tudo indica, ter permanecido na fábrica ou na propriedade de um ou algum dos donos da empresa Caramuru.

Isso porque se nota curiosidades na arma. Temos um amassado na parte direita, que, ao desmontá-la, fica nítido a sobra de material no interior da arma, servindo esse amassado (proposital) para permitir a junção de determinados componentes das partes internas, sem a qual a arma não funcionaria. Não se trata, portanto, de um defeito, mas sim da tentativa, ainda na fábrica, de permitir sua funcionalidade.

Note, ao lado, o amassado, sem qualquer risco, feito na parte traseira onde se assenta o tambor. Desta forma, temos um ajuste realizado na própria fábrica. Some-se, a isso, o fato de que as armas posteriores ao número 0001, pelo menos aquelas que tivemos a oportunidade de observar, possuem o mesmo diâmetro no cabo, o que permitiria trocarmos as empunhaduras sem o menor problema, fato não possível com o número de série 0001.

Ambas as armas analisadas (0001 e 2194) não possuem o número de série estampados nas demais peças da mesma arma. Logo fica nítido que o fabricante carimbava as peças (tambor, cano, quadro etc) com número próprio para cada peça, ao passo que a parte final do cabo, abaixo da empunhadura, cunhava o número da série. Portanto, o número de série 0001 contém as peças registradas sob o número 415, sendo que o número de série 2194 tem suas peças registradas sob o número 594.

O colecionador acostumado com a forma Norte Americana de verificação de número de série, por óbvio, se assustaria e realmente duvidaria da originalidade da arma, já que o Caramuru R1 somente leva o número de série estampado em apenas um local, contradizendo a maneira quase global de cunhar as armas de fogo.

Abaixo deixamos mais fotografias para análise e comprovação das assertivas. Sem dúvida um ícone das armas brasileiras, a qual merece respeito e destaque no ARMAS HISTÓRICAS.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fundador do site Armas Históricas é Advogado. Colecionador da 2ª RM. Estuda armas de fogo e artefatos militares e seu impacto e relevância para os dias atuais. Também é entusiasta e participa de encontro entre colecionadores do Brasil e exterior. Sócio da Confederação Brasileira de Tiro Esportivo no Estado do Rio de Janeiro.


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